Captulo 8

Associao

SE nO dssemos ateno  experincia direta, correramos grande perigo de construir um sistema de
Psicologia artificialmente simplificado, como o behaviorismo. Por outro lado, parece impossvel estudar-se a 
Psicologia apenas como a cincia da experincia direta. Para sse fim, o campo da experincia  
demasiadamente restrito.  de todo evidente que os acontecimentos neurais, acompanhados de experincia, 
constituem apenas partes de estruturas funcionais maiores. Como tais, dependem de fatos aos quais a 
experincia no tem acesso direto. Como poderamos pretender apresentar uma teoria adequada de fenmenos 
psicolgicos meramente com base na experincia, se os processos bsicos dessa experincia representam 
apenas parte de um conjunto funcional mais ampla? Ningum poder compreender um jgo de xadrez olhando 
apenas para o movimento das pedras em um canto do tabuleiro. 
Neste ltimo caso, o observador dentro em pouco ficaria ciente de que, constantemente, importantes 
fenmenos estavam acontecendo fora do campo estreito de sua observao, pois os movimentos dentro dsse 
campo esto, evidentemente, relacionados com outros fatos que devem estar alm, particularmente porque 
certos movimentos vm de l e outros desaparecem naquela regio. 
Exatamente a mesma coisa se d com a experincia. Assim, por exemplo, quando estamos lendo ou 
conversando sbre coisas que, na ocasio, no esto presentes, no podemos, habitualmente, criar imagens 
adequadas de tais objetos. Algumas vzes, les podem parecer no ser representados por qualquer 
experincia. Quando me perguntam qual  a minha profisso, respondo que sou psiclogo, mas a verdadeira 
experincia ligada a esta palavra pode restringir-se a um sentimento de familiaridade e de conhecimento em certa direo, na 
qual deveria eu mover-me, se se tornassem necessrios dados mais minuciosos e concretos. Essa presteza na mudana para 
a direo correta, quando o prprio objeto no  apresentado de maneira explcita, foi magnificamente descrita por William 
James. Trata-se, provvelmente, de um dos fenmenos mais comuns na experincia. Seu carter mais notvel consiste no 
fato de que, em tais circunstncias, partes da verdadeira experincia so sentidas como algo que apontasse para alm dessa 
experincia, em direo a algo especfico que temos certeza de que se encontra ali. Assim a experincia nos revela nossas 
prprias limitaes. No devemos espantar-nos muito com esta observao.  precisamente o que temos de esperar se, de 
um conjunto funcional mais amplo, apenas uma parte restrita  representada na experincia. A direo especfica da qual 
temos, ento, conscincia, corresponde ao fato de uma parte do campo conhecido pela experincia estar funcionalmente 
relacionada com processos que no tm verses experimentadas. Embora no sejam realmente experimentados, tais 
processos devem ser altamente especficos, pois via de regra, seguimos na direo correta quando lemos ou falamos, 
evidenciando-se, assim, que o ato de ler ou de falar  adequadamente determinado por aqules fatos ocultos. 
Talvez o exemplo mais simples disto seja a comparao sucessiva em suas diferentes formas. Depois de alguns anos de 
viagem, encontro-me com um amigo e minha primeira idia : Como est velho! Isto no quer dizer que o meu amigo 
esteja particularmente velho em uma escala absoluta. Diriamente vejo homens mais velhos. Tambm no quer dizer isto 
que a imagem do meu amigo, tal como o conheci antes, seja agora reativada e comparada com sua aparncia atual. No 
entanto, a observao, de certo modo, refere-se ao passado; representa uma forma extrema do que ocorre na maioria dos 
casos de comparao sucessiva. Se, cinco segundo depois de um primeiro som, ouo outro do mesmo tom, mas 
suficientemente mais forte, posso fcilmente reconhecer a relao entre os dois sons, embora, em geral, no me lembre 
realmente do primeiro quando  apresentado o segundo. (Na realidade, nas circunstncias temos dificuldade em evocar uma 
imagem mais ou menos correta do primeiro som, quando ouo o segundo). Presentemente, todos os psiclogos parecem 
estar de acrdo neste ponto. 
Como pode, porm, ser reconhecida a relao, se apenas um dos sons  realmente experimentado? A resposta  que no 
experimentamos o segundo som como um fato separado, e, sim, que le nos aparece como uma referncia especfica a algo 
no passado. Essa referncia tem uma direo ou tendncia na dimenso do tempo que pode ser para cima ou para baixo. 
Ainda mesmo se admitirmos tal fato, contudo, nosso problema ainda no estar resolvido. Nossos julgamentos em 
1 Podemos, tambm, dizer que o segundo som tem uma caracterstica que lhe pertence, como segundo membro de um par (Cf. Captulo 6). 
144 
145 
tais casos so, habitualmente, muito exatos. Assim, o que fica do passado, isto , do primeiro som, deve ser 
suficientemente representativo de sua altura, para fazer com que o segundo surja na direo correta. Por outro lado, ste 
trao do primeiro som no pode, sob todos os aspectos, pertencer  mesma classe do processo que, cinco segundos antes, 
acompanhou a experincia do primeiro som. Se le fsse precisamente da mesma espcie, haveria tambm a experincia 
correspondente, o que, como vimos, no precisa geralmente ser o caso. Assim, smente algum efeito daquele primeiro 
processo pode restar, enquanto o prprio processo se atenua.  ste efeito que deve representar o prprio processo. Na 
verdade, deve le representar sse processo to bem que o segundo som aparece com a relerncia correta ao nvel do 
primeiro. 
No que se refere aos pormenores, vrias hipteses podem ser aventadas. No ser aceitvel, porm, qualquer teoria que 
deixe de presumir a existncia de algum trao. Certa vez, apresentei uma explicao mais minuciosa da comparao 
sucessiva, em que eram indicados o trao do primeiro som e a elevao do segundo.2 Conclu que a experimentao na 
comparao sucessiva pode-nos mostrar diretamente o que acontece ao trao do primeiro processo, quando ste prprio 
processo cessou. At agora, tais experincias me levam a acreditar que traos dessa espcie so conservados durante muito 
tempo e provvelmente idnticos s bases fisiolgicas da memria. 
Tdas as teorias bem fundadas sbre a memria, o hbito, etc., devem conter hipteses sbre os traos da memria como 
fatos fisiolgicos. Tais teorias tambm devem presumir que as caractersticas dos traos so mais ou menos afins s dos 
processos, graas aos quais elas foram criadas. De outro modo, como poderia ser explicada a preciso da reestruturao, 
que  notvel em grande nmero de casos? A Psicologia da Gestalt acrescenta, mais particularmente, que pode ser 
conservada nos traos qualquer organizao especfica que apresentem os processos originais e as experincias que os 
acompanham. Se tal organizao  conservada, exerce poderosa influncia s8bre a reestruturao. Tomemos os exemplos 
apresentados no Captulo 4, onde estudamos o conceito da forma visual. Se uma coisa com sua forma especfica foi 
percebida muitas vzes, juntamente com outros fatos, a apresentao da mesma coisa pode mais tarde provocar a 
reestruturao dos fatos. Se, porm, com os mesmos estmulos presentes, outra coisa de forma diferente  vista por algum 
motivo, no haver reestruturao. Assim, quando o nmero 4  mostrado em certo ambiente (cf. Fig. 14) provocar 
fcilmente a reestruturao do seu nome. Quando, porm,  mostrada a Fig. 10 a uma pessoa desprevenida, tal nome no 
ocorrer de modo algum. Por outro lado, depois de ter a pessoa encontrado 
2 PSYChO1. Forscb,., 4, 1923. Mais recentemente, minhas concepes tericas foram grandemente aperfeioadas por Lauensteifl 
(PS1JC7L01. ForSClL., 17, 1933). 
o 4 na Fig. 10, o que significa que o 4 passou a ser uma coisa isolada, tal pessoa prontamente o ver de nvo no futuro e em 
seguida reestruturar o seu nome. Disso se deduz que os traos das experincias passadas no constituem um contnuo 
indiferente nem um mosaico de fatos locais independentes, e, sim, que devem ser organizados de maneira que se paream 
com a organizao dos processos originais. Com essa organizao, participam dos processos de reestruturao. 
A mesma propriedade dos traos tambm pode ser deduzida dos fatos de reconhecimento. Quando Rubin preparou seus 
sujeitos para que les apreendessem certos desenhos em uma distribuio particular de figura e fundo, sses sujeitos as 
reconheciam muito bem se, posteriormente, as condies experimentais favorecessem a mesma organizao. Se, porm, 
uma rea que, em primeiro lugar, fra figura, se tornava o fundo na segunda apresentao e vice-versa, os pacientes viam-se 
diante de novas formas que, naturalmente, no reconheciam. Os estmulos, contudo, eram exatamente os mesmos da 
primeira apresentao. Tambm aqui os traos atuavam de acrdo com a organizao e no como meros agregados de fatos 
locais independentes. Podemos ir mais longe: na maior parte dos casos de reestruturao, o prprio material ativado  
evidentemente organizado. Foi demonstrado ser isto verdade no smente com as imagens, mas tambm com as melodias 
motoras familiares, por Michotte e Vand der Veldt.3 Indivduos que tm imagens visuais muito vivas admitem que a 
imagem de determinada rvore se destaca como figura de um ambiente ou fundo mais escuro. Na verdade, na livre 
imaginao e no sonho podemos contemplar cenas que diferem muito de qualquer experincia que tenhamos tido antes. No 
obstante, mesmo as mais estranhas criaes dos sonhos continuam sendo figuras que apresentam as caractersticas 
essenciais da organizao. 
Em inmeros casos, a organizao  to decisiva que mudanas radi. ciais dos estmulos no afetam o reconhecimento ou a 
reestruturao  contanto que a organizao continue a mesma. Assim, uma melodia  reconhecida em um tom diferente, no 
qual pode no ter sido conservado um nico som do original. Tambm pode-se dar o caso de, alguns dias depois de trmos 
ouvido uma melodia pela primeira vez, podermos surpreender-nos a cantarolar em um tom que, depois de examinado, 
mostra-se diferente do modlo. Aqui, todos os fatres, exceto a organizao, mostram-se destitudos de importncia no que 
diz respeito  reestruturao. Do mesmo modo, uma figura desconhecida, que  vista hoje em cr vermelha, um tanto  
esquerda do ponto de fixao e de um certo tamanho, prontamente ser reconhecida amanh, embora possa ser, agora, verde 
ou amarela, inclinada para o lado direito e de tamanho diferente.4 Evidentemente o reconhecimento e a reestrutura 
LAprentissage du Mouvement et lAutomatisme, 1928. 
4 E. Becher, Gehii-n und Seeie, Heidelberg. 1911. 
148 
147 
o dependem pelo menos tanto da organizao dos acontecimentos passados como dos efeitos locais de estmulo, que, de 
acrdo com a teoria do mosaico, seriam os elementos de experincias passadas. Voltaremos ao assunto. 
Partindo do presente ponto de vista, podem ser prontamente explicadas algumas observaes que causam perplexidade, 
enquanto no  reconhecida a importncia da organizao. Em experincias de reao retardada com animais tem-se 
verificado que, depois de uma demora de muitos segundos, ou mesmo minutos, alguns animais ainda tm capacidade de 
escolher o objeto correto, entre trs outros, por exemplo, embora, no momento da reao, o objeto correto j no possa ser 
distinguido pelo indcio particular com que contava antes do retardamento. Ora, se, durante o retardamento, o animal 
simplesmente conserva sua orientao para o objeto correto, sua escolha acertada deixa de parecer to surpreendente. 
Surge, porm, um problema real, se, durante sse perodo, o animal se mover livremente em sua gaiola e, no obstante, fizer 
depois a escolha acertada. Tem-se dito que, em tal caso, a reao do animal depende de algum indcio interno. Isto  verdade 
at o ponto que, sem algum ps-efeito da situao original (na qual, por exemplo, o objeto correto foi mostrado contendo 
certo alimento), as reaes corretas poderiam ser inteiramente incompreensveis. Tal ps-efeito , naturalmente, um indcio 
interno. Quando, porm, depois do retardamento e de muitos movimentos feitos pelo animal ao acaso, sse indcio interno 
se torna atuante, deve haver alguma caracterstica no objeto correto,  qual se refira indcio. Se examinarmos cada objeto em 
si mesmo, podemos no descobrir tal indcio, porque tal objeto tem em si prprio as mesmas caractersticas dos outros. De 
qualquer maneira, porm, diferem sob um aspecto, isto , o papel que cada objeto desempenha no grupo de objetos. Um 
constitui a parte direita do grupo, outro a parte esquerda, outro a parte central ou do meio. Se, depois do retardamento, o 
animal reage corretamente, a nica caracterstica do objeto em questo que lhe permite ligar seu indcio a sse objeto  o 
lugar do objeto dentro do grupo dos trs.5 Antes do retardamento, um fato particular, como o de se mostrar a colocao do 
alimento, serviu para individualizar um objeto. ste objeto, porm, tambm era caracterizado pelo fato de ocupar uma 
posio especfica dentro de um grupo de objetos. Assim, se, na ocasio, aqule acontecimento se associou  posio do 
objeto correto dentro do grupo, o animal, depois do retardamento, reagir quele objeto. Em outras palavras: a reao 
retardada dsse tipo depende da percepo e do reconhecimento de uma caracterstica Gestalt. Por sse motivo, as reaes 
retardadas, tantas vzes investigadas por psiclogos especializados na Psicologia animal, no podem ser compreendidas em 
refe5 Naturalmente, o grupo pode ser maior. (CL O. L. Tinklepaugl, The Journal 
of Compar. Psycltol., 8, 1928). 
tnca ao principio de organizao. Isto se torna ainda mais evidente se considerarmos o mtodo de escolha 
mltipla, que Yerkes empregou com tanto sucesso. Em tal caso, isto  ainda mais claramente o papel especfico 
de um objeto no grupo que se relaciona com uma reao. Nestas condies, no deve causar demasiada 
surprsa o fato de que a reao possa permanecer correta, ainda que a posio do grupo como um todo, e, 
portanto, a de todos os seus membros, varie livremente nos testes. 
Antigamente, a Psicologia experimental no se interessava muito pelo conceito dos traos da memria em si 
mesmos. Os pesquisadores eram muito mais atrados por outro conceito no campo da memria. Quando 
dizemos que os traos dos processos organizados so les prprios entidades organizadas, no mencionamos 
o fato mais importante da memria, o fato de que os traos costumam ligar-se ou associar-se. A associao  
comumente considerada como um elo entre duas experincias que nos permite reestruturar a segunda 
experincia, quando apenas a primeira nos  apresentada de nvo. Tal elo, afirma-se, forma-se quando ocorrem 
juntas duas experincias e, em particular, quando se repete sua ocorrncia contgua. A existncia de traos  
um fator fundamental da memria, do hbito, etc. A associao pela contiguidade  outro fator semelhante, e 
quase tdas as pesquisas clssicas sbre a memria tm tratado dsse aspecto do aprendizado e reteno. Os 
psiclogos sentem-se orgulhosos de seus trabalhos sbre a associao, porque, nesse setor, tanto os 
mtodos como as realizaes parecem quase comparveis aos das cincias naturais. 
ste orgulho , em parte, justificado. Por outro lado, comeamos a compreender, pouco a pouco, que, com os 
excelentes mtodos de que dispomos, apenas um tipo de memria muito especial foi investigado at agora, e 
que os resultados obtidos no devem ser aplicados com precipitao  memria em geral. Alm disso, h uma 
questo em que tais pesquisas mal tocaram, porque, a princpio, ela no foi prontamente reconhecida como um 
problema. Ser realmente verdade que a mera repetio de dois processos contguos estabelece uma 
associao entre les? E, alm disso, ser a associao um simples elo, que liga as experincias, da mesma 
maneira que uma corda prende dois objetos? O conceito de associao a que essas questes se referem ser 
examinado nos pargrafos seguintes. 
A lei de associao por contiguidade tem sido considerada particularmente satisfatria porque d ao 
aprendizado uma interpretao puramente mecanicista. Que poderia estar mais de acrdo com o esprito da 
cincia natural? Devo confessar, no entanto, que, precisamente do ponto de vista cientfico, a lei da 
associao por contiguidade me parece bem estranha. Dois processos, A e B, ocorrem juntos e, quaisquer que 
possam ser as naturezas de um e de outro, um lao se forma entre les! No conheo uma nica lei na Fsica ou 
na Qmica que pudesse, a sse respeito, ser comparada com a lei da contiguidade. 
1 AO 
149 
Anteriormente, no Captulo 4, j tratamos dsse fato. Quando, na Fsica, dois objetos ou fenmenos, A e B, se 
tornam funcionaimente inter-relacionados, essa inter-relao e suas conseqncias invarivelmente dependem 
das caractersticas de A e B. ste  o caso da Astronomia, em que a acelerao de uma estrla por outra  
funo da massa, O mesmo se d na eletrosttica, onde a direo em que atua a interao depende dos sinais 
das cargas eltricas. Na Qumica, os tomos reagem ou ficam indiferentes uns aos outros, de acrdo com suas 
caractersticas determinadas. Inversamente, no h exemplos de interaes em que a natureza dos fatres 
interagentes no desempenhe papel algum. No entanto, na clssica lei de associao por contiguidade, a 
natureza das coisas que se tornam associadas  tcitamente ignorada. 
Evidentemente, neste ponto temos de nvo pela frente a teoria mecanicista ou do mosaico. Se, na distribuio 
dos fenmenos dentro do sistema nervoso sensorial, a interao chegar a ter participao, os resultados 
devem depender das caractersticas dos processos de interao. A teoria do mosaico do campo sensorial 
exclui essa possibilidade, presumindo que os fenmenos sensorais locais ficam indiferentes uns aos outros, e 
que, em conseqncia, smente o acaso do estmulo perifrico determina o modlo resultante. Verificamos 
agora que, no conceito clssico de associao, o mesmo ponto de vista  tido como certo. Todos os AA e BB 
so peas indiferentes que fazem parte de um mosaico. No tm ao recproca entre si. Qualquer lao pelo 
qual paream estar ligados deve ser anlogo a um cordo que amarra dois objetos. Em tal conexo as 
caractersticas dos objetos no tm import ncia. 
Agora podemos afirmar, convictamente, que esta interpretao das associaes j no  sustentvel. Sua 
debilidade  aparente, ainda que consideremos apenas o trabalho que foi feito com os mtodos clssicos. 
Em uma srie de slabas, A e B, isto , duas slabas contguas, sem dvida no so indiferentes uma  outra, 
uma vez que A ou B no so indiferentes mesmo a F, G e H, isto , componentes mais afastados da srie. Se 
mandarmos uma pessoa escrever seis slabas que lemos para ela rpidamente, via de regra ser capaz de faz-
lo. Se, porm, em vez de seis, lhe dermos uma srie de doze slabas, tal pessoa, habitualmente, s acertar em 
menos de seis slabas. Evidentemente, todos os membros da srie perturbam uns aos outros. Como podemos, 
ento, dizer que les so mituamente neutros? Na conhecida tcnica de associados aos pares, as 
associaes de uma pessoa so submetidas  prova, fornecendo-se a essa pessoa slabas isoladas, s quais 
ter ela de acrescentar os itens que se seguem na srie. Sua eficincia em conjunto  medida pelo nmero de 
casos em que suas respostas so corretas. Essencialmente, ste processo pressupe que as associaes 
dentro de uma srie so fatos reciprocamente independentes, que, devido  sua independncia, permitem um 
tratamento estatstico. Esta presuno no pode ser inteiramente correta, pois no leva em consi150 
derao a interdependncia dos membros de uma srie,  qual acabei de aludir.  bem verdade que no haver grande mal se 
a interdependncia  estatisticamente a mesma em tdas as sries e se os problemas investigados so do tipo comum. Logo, 
porm, que a natureza das associaes se torna um problema, devemos, naturalmente, ter a maior cautela. 
Uma outra constatao que parece incompatvel com o ponto de vista tradicional  a que se refere a certas mudanas, que 
as slabas esto sujeitas a sofrer durante a aprendizagem. De fato, em sua maior parte, as sries so lidas pelo sujeito de 
maneira especificamente rtmica, que consiste de grupos maiores e de grupos subordinados. Ao mes.mo tempo, a leitura 
assume certo carter de melodia, na qual o timbre da voz sobe e desce, enquanto os grupos comeam e acabam.6 
Aparentemente, isso quer dizer que, durante a aprendizagem, e principalmente durante as primeiras leituras da srie, o 
material est sendo organizado de maneira especfica. Sabemos, porm, pelo que ficou dito anteriormente, que, se ste fr o 
caso, as slabas individuais devem adquirir caractersticas particulares, caractersticas estas que devem aos seus papis na 
organizao. Essa conseqncia  perfeitamente verificada nos casos em que, depois da primeira aprendizagem de uma srie 
como um todo, so mostrados aos sujeitos os mesmos componentes em outra seqncia. Na nova ordem, sses 
componentes parecem novos e estranhos. Objetivamente, essa influncia de organizao  demonstrada de maneira 
altamente convincente, se, depois de os sujeitos terem aprendido a recitar tda uma srie sem hesitao, lhes forem 
mostradas slabas isoladas, para que se lembrem dos componentes seguintes. Nagel verificou que, nessas condies, 
dificilmente uma tra parte das slabas era lembrada, ao passo que a srie em seu conjunto podia ser recitada com 
facilidade.7 Dentro do fluxo de uma srie organizada, determinadas slabas no se mostram a mesma coisa que eram quando 
szinhas. 
Ebbinghaus e seus sucessores escolheram slabas sem sentido como 
o melhor material para as pesquisas de associaes, porque queriam experimentar em condies em que nenhuma 
associao mais antiga e anterior  experincia pudesse afetar os novos laos, experimental- mente estabelecidos. Receavam 
les que, se fsse empregado material com sentido, antigas associaes influenciassem os resultados de modo 
descontrolado. Slabas sem sentido, alm disso, constituem um material mais uniforme do que quaisquer outros 
componentes. Seria injusto negar-se que a Psicologia recebeu formidvel impulso com o trabalho executado de acrdo com 
sse mtodo. Parece, contudo, que os primeiros pesquisadores empregaram a tcnica de um modo um tanto unilateral. Seja 
como fr, as mais valiosas observaes foram feitas 
6 Cf. padres apresentados po Fringa, Arch. f. d. ges. Psychol., 30, 1914. 
7 Arch. j. ci. ges. P8VCfl.Qj., 23, 1912. 
11 
depois de ter sido, pouco a pouco, vencida certa estreiteza do ponto de vista original. 
Alguns psiclogos tm criticado o mtodo de Ebbinghaus porque no investiga de fato as associaes que so 
automticamente estabelecidas.  um bom motivo para crtica, uma vez que os resultados do mtodo so habitualmente 
formulados como se as associaes se formassem espontneamente. Na verdade, se se supe que a simples contigidade de 
slabas  a causa de suas associaes, a maior parte das experincias em que ste material  usado est longe de verificar as 
associaes nesse sentido, O paciente no  simplesmente exposto a uma sucesso de slabas, mas, sim, convidado a 
decor-las. Se le segue esta instruo, no  apenas a contigidade que estabelece as associaes; e ste fato nem  ao 
menos mencionado, quando os resultados so formulados em funo de laos automticamente formados. 
Indubitvelmente, esta  uma falha do processo.  um rro grave, pois, pouco a pouco, verificou-se que, sem a 
memorizao intencional, o aprendizado de uma srie de slabas sem sentido  de todo impossvel.8 
Que fazem, ento, os sujeitos, quando procuram decorar intencionalmente uma srie? Ningum est mais autorizado a dar 
uma resposta a esta pergunta que G. E. Mller, que dedicou grande parte de sua carreira de cientista investigando a 
associao e a reteno. Sua resposta  a seguinte: Uma srie de figuras, consoantes, slabas, etc,,  aprendida 
essencialmente em uma atividade de sntese em que os membros da srie so combinados de maneira que se tornam grupos 
slidos.9 Em captulo anterior, vimos que tal atitude  susceptvel de estabelecer grupos em percepo e que seus efeitos 
podem ser fatos perceptivos to legtimos como  qualquer organizao espontnea. Podemos, portanto, concluir da 
afirmao de Mller que a memorizao intencional corresponde  organizao intencional. 
Embora no caso de material sem sentido e, acima de tudo, de slabas, tal atividade parea ser virtualmente necessria, isto 
no , evidentemente, necessrio com certos outros materiais. De vez em quando, reestruturamos fenmenos, quando os 
fatos que ento levam  reestruturao no foram intencionalmente combinados com aqules fenmenos. Disso se conclui 
que, embora o material sem sentido, usado nas investigaes clssicas, satisfaa certas condies de exatido, no nos pode 
ensinar tda a verdade a respeito das associaes. Quando, em vez do material clssico, ns nos valemos das experincias 
mais naturais da vida quotidiana, as associaes no so, geralmente, formadas dsse modo. 
Ser, porm, que tdas as nossas experincias fora do laboratrio se associam espontneamente? Tambm ste no  o 
caso. Podemos ouvir um nmero de telefone dezenas de vzes, juntamente com um nome, e 
8 Khn, Zeitschr. f. Psychol., 68, 1914. Tambm PoppelreUter, Zeitscr. 1. Ps(-. chol., 61, 1912. 
9 O. E. Mhler, Abriss der Psycli.ologie, 1924. 
&ntinuarmos incapazes de lembr-lo, quando nos ocorre o nome. Em tal caso, as condies parecem semelhantes s que 
caracterizam a associao de slabas sem sentido. No h relaes especficas entre o nome e o nmero, e stes trmos no 
tendem a formar um grupo espontneamente. Nasce, assim, a suspeita de que as associaes surgem espontneamente, 
quando a organizao  espontnea e que a associao pressupe combinao intencional, quando o material em si mesmo 
no se mostra susceptvel de formar grupos organizados. 
Esta presuno  corroborada pelo fato de formarem os substantivos com sentido associaes muito mais prontamente do 
que o material destitudo de sentido. Neste caso, naturalmente, de h muito tempo os substantivos estavam impregnados 
de sua significao. Assim, quando os sujeitos aprendem uma srie de substantivos, encontram essas significaes 
firmemente ligadas s palavras, e, como  claro, so essas significaes que agora se mostram to fcilmente associadas. 
Mas por que se mostram? A maioria dos psiclogos responder que as signif icaes dos substantivos se prender no 
smente s palavras, mas, em conseqncia de associaes anteriores, tambm umas s outras, isto , que basta ao processo 
de aprendizado fortalecer os laos que existiam h tanto tempo. Nesse ponto deve ser salientada a diferena entre a 
Psicologia da Gestalt e o associacionismo. Faamos algum ler algumas vzes os seguintes pares de substantivos: lago  
acar, sapato  prato, ma  canguru, lpis  gasolina, palcio  bicicleta, ferrovia 
 elefante, livro  dentifrcio. O aprendizado desta srie ser considervelmente mais fcil do que o de um mesmo nmero de 
slabas sem sentido. Poder, porm, algum afirmar que, realmente, existem entre lago e acar, palcio e bicicleta, etc., 
fortes associaes pr-experimentais que precisam apenas de ser reavivadas de leve para tornar o aprendizado uma tarefa 
fcil? Parece-me que no, pois milhares de vzes as mesmas palavras ocorreram em outras conexes muito mais regulares. 
Essas fortes conexes devem exercer uma influncia inibidora sbre as associaes mais fracas, que, de acrdo com a 
explicao, tornam to fcil o aprendizado neste caso. A explicao no , assim, to plausvel quanto pode parecer a 
princpio. A Psicologia da Gestalt oferece uma interpretao diferente. Quando leio aquelas palavras, consigo imaginar, em 
uma srie de quadros estranhos, um torro de acar dissolvendo-se em um lago, um sapato colocado em cima de um prato, 
uma ma dando de comer a um canguru, e assim por diante. Se isso acontece durante a leitura de uma srie, experimento na 
imaginao certo nmero de conjuntos bem organizados, embora pouco comuns. Talvez o aprendizado seja aqui to fcil 
porque um material dessa espcie conduz le prprio  organizao. A fim de excluir a possibilidade de freqentes conexes 
semelhantes no passado, tive, naturalmente, de escolher estranhos pares de substantivos, cujos significados podem ser 
organizados em quadros mais amplos, mas no muito espontneamente. 
152 
153 
Se no estou enganado, as combinaes e seqncias que so ainda mais fcilmente associadas na vida 
quotidiana constituem simples exemplos de organizao inteiramente espontnea. 
Sob sse aspecto, as slabas sem sentido devem ser consideradas como o pior material que poderia ser 
escolhido para se descobrir a natureza essencial das associaes. Como tais slabas no se organizam 
espontneamente, em grupos bem caracterizados e especficos, a natureza da associao espontnea no pode 
tornar-se aparente ao psiclogo que ie utiliza apenas dsse material. Alm disso, como as sries de slabas so 
construdas ao acaso, pouca coisa nos ensinam a respeito da maneira de que depende o aprendizado, no que 
pode ser chamado de estrutura de uma srie. Embora esta consista apenas de material sem sentido, que  
homogneo at certo ponto, pode-se construir uma srie de muitas maneiras diferentes. As slabas podem ser 
ajuntadas como vizinhos que se ajustam uns aos outros fonticamente, ou se pode fazer exatamente o 
contrrio. Alguns pares podem ser construdos de acrdo com um princpio, alguns de acrdo com outro. A 
srie inteira pode apresentar uma estrutura especfica, ou pode ser uma srie indiferente tal como as 
comumente usadas. Tdas essas variaes devem ser examinadas, se quisermos saber se a organizao  ou 
no um fato essencial que sustenta cada associao. Pelo que atrs ficou dito, estamos inclinados a dizer que 
isto , realmente, o que se d. 
Como ltimo argumento em favor de nossa tese, podemos mencionar o fato de que, se foi aprendida uma srie 
pela combinao de seus membros aos pares, os sujeitos prontamente faro a reconstituio dos segundos 
membros dos pares, quando forem dados os primeiros, ao passo que a reconstituio ser muito difcil, quando 
os segundos membros dos pares so apresentados e os elementos seguintes da srie, isto , os primeiros 
membros dos pares seguintes devem ser relembrados. Se supusermos que, durante a aprendizagem, os 
membros das sries foram apresentados como seqncia objetivamente uniforme, ste resultado  
incompatvel com o conceito de associao, tal como foi uma vez compreendido. Evidentemente, as condies 
de associao no so adequadamente descritas, enquanto forem ignoradas as condies a respeito da 
organizao do material. Associaes fortes s ocorrem entre componentes das sries que se tornam partes de 
grupos bem definidos. No negamos que a contigidade no espao e no tempo  um fator de grande 
importncia na associao, mas ste fator no parece atuar diretamente. Vimos, em captulo anterior, que o 
fator de proximidade desempenha uma parte importante na formao e isolamento de conjuntos sensoriais. Do 
que acabamos de dizer, segue-se, pois, que a contigidade no espao e no tempo smente favorece a 
associao porque, sob o nome de aproximao,  um fator favorvel na organizao. Ora, esta condio  
apenas uma entre muitas outras, que tm, tdas, uma influncia favorvel sbre a organizao e, como se torna 
aparente que a organizao  uma condio realmente decisiva 
daquilo que comumente se chama de associao, a regra da associao talvez tenha que ser reformulada de 
acrdo com isso. 
Resumindo: quando a organizao  naturalmente forte, a associao ocorre espontneamente. Na ausncia de 
organizao especifica, no  de esperar qualquer associao, at que o sujeito estabelea intencionalmente 
alguma organizao. Alm disso, quando os membros de uma srie esto bem associados, apresentam 
caractersticas que dependem de sua posio nas sries conjuntas, da mesma maneira que os sons adquirem 
certas caractersticas, quando ouvidos dentro de uma melodia. Finalmente, componentes de uma srie que 
constitui pequenos grupos slidos so, ao mesmo tempo, componentes particularmente bem associados. 
Depois destas observaes preliminares, poderemos discutir a natureza do lao que se diz originar-se entre os 
traos dos processos, quando sses processos se tornam associados. A opinio predominante  que a 
associao significa um aumento de condutividade das vias neurais que ligam os locais dos processos e os 
traos em questo. Em cada repetio dsses processos, presume-se que o fenmeno ocorra no tecido situado 
entre les, diminuindo sua resistncia. Como resultado, uma excitao que atinge o local do primeiro trao se 
espalhar, futuramente, em direo ao lugar do segundo trao e no a outras partes do crebro. Assim, o trao 
do segundo processo tende a ser reativado, quando s  dado o primeiro processo. Esta hiptese no  
inteiramente satisfatria. Embora nos leve a esperar que, depois de repetidas apresentaes de um par de 
componentes, a excitao se propagar ao longo de vias conectivas e, talvez, aumente mais a condutividade, 
no nos revela porque deveria acontecer algo de particular a essas vias na primeira ocasio. A dificuldade  
sria, especialmente nos casos em que a associao  bem estabelecida, depois de uma nica apresentao 
dos itens. 
No sabemos o que acontece na reestruturao. A nica coisa que nos vemos compelidos a presumir  que h 
algumas conexes entre os traos dos dois processos, A e B, de maneira que a reativao de A leva  
reestruturao de B mais do que a quaisquer outros fatos com que A no estivesse associado. A sse 
respeito, so possveis duas hipteses. Se acreditamos que, tornando-se associados, A e B continuam a ser 
dois fatos reciprocamente neutros, que esto apenas juntos por acaso, ento, algum lao especial, como um 
grupo de fibras particularmente boas condutoras, pode ser considerado como uma base adequada da 
associao. Em oposio a ste ponto de vista, podemos, contudo, raciocinar da seguinte maneira: quando A e 
B se tornam associados, so experimentados no como duas coisas independentes, mas como membros de 
uma unidade-grupo organizada. Isto pode agora ser considerado certo. Partindo-se desta premissa, porm, a 
situao neural no pode consistir de duas partes separadas, uma das quais corresponde a A e outra a B. Ao 
contrrio, a experincia unitria 
154 
155 
indica que uma unidade funcional  formada no sistema nervoso, na qual os processos A e B tm apenas uma 
independncia relativa. Se ste fr o caso, no podemos esperar que sejam deixados dois traos separados, 
quando A e B j no forem mais experimentados. Os traos, reafirmamos, mostram a tendncia de preservar a 
organizao dos processos originais. Assim, ser estabelecido apenas um trao que representa a unidade 
funcional pela qual le  formado. E nesse trao, A e B existiro apenas como sub-unidades relativamente 
segregadas. Conseqentemente, em virtude de sua incluso dentro de um s trao, A e B esto (?) to bem 
ligados como poderiam ficar por meio de um lao especial. Supe-se que tal lao espalha a atividade nervosa 
na direo correta, de A a B, mas o fato  que a situao de A e B dentro de um trao unitrio (que , 
naturalmente, isolado dos outros traos) ter precisamente o mesmo efeito. 
Ser aconselhvel dar  nossa suposio uma formulao mais radical em que ela possa ser mais fcilmente 
distinguida da antiga concepo. De acrdo com a nossa tese, a associao perde seu carter de conceito 
terico especial e independente, e torna-se um nome para o fato de processos organizados deixarem traos em 
que a organizao dsses processos  mais ou menos adequadamente preservada. No nego que essas 
associaes sejam fortalecidas pela repetio, mas isto no significa, necessriamente, que a repetio 
aumente o vigor de um lao especial. Tambm admito que, algumas vzes, como no caso do material sem 
sentido,  necessria uma atitude particular do sujeito para que se estabelea a associao. Como salientamos 
antes, porm, tudo aponta para a tese de que essa atitude  de organizao ativa. Se o sujeito  bem sucedido, 
ter, agora, experincias correspondentemente organizadas; os fenmenos neurais acompanhantes devem ser 
semelhantemente organizados; e sero formados traos que tambm tm a mesma organizao. O nico 
problema nvo que surge nesta situao  o da influncia de intenes sbre a organizao. ste problema 
no se relaciona apenas com questes de memria (c/. Cap. 5). 
No faltar quem diga que no importa, se aceitarmos uma ou outra teoria de associao, uma vez que no 
estamos em condies de examinar o crebro e decidirmos qual  a verdadeira. Adotar tal ponto de vista, 
porm, seria interpretar errneamente qualquer hiptese. Se uma hiptese tem um contedo especfico, tambm 
deve ter implicaes especficas, e estas podem ser verificadas. No caso presente, tais implicaes so bem 
evidentes. 
A velha regra sbre associao por contigidade, j lembramos, no se refere a caractersticas de A e B que se 
tornaram associadas. 
Isto  bem natural, uma vez que, nesta regra, se supe tcitamente que a associao  uma conexo semelhante 
a uma corda, graas  qual coisas igualmente indiferentes umas s outras e  associao so foradas a uma 
espcie de parceria. Por outro lado, a organizao est longe de constituir uma agregao que se impe a 
materiais recipro156 
camente indiferentes. Na experincia sensorial, j foi mostrado, a organizao depende claramente das caractersticas dos 
fatos em suas relaes uns com os outros. Assim, se a associao  uma conseqncia da organizao, deve tambm 
depender dessas caractersticas. De certo modo, sua influncia tem sido verificada por observaes mencionadas neste 
captulo. Contudo, muito mais resta a ser feito. O que necessitamos  de variaes radicais no material apresentado para 
aprendizagem. Tais variaes so diretamente prescritas pelos princpios da Psicologia da Gestalt. Ser mesmo verdade 
que, permanecendo as mesmas as outras circunstncias, o vigor das associaes varia com o vigor da organizao em que 
residem os componentes? Conhecemos, tambm, as condies especficas das quais depende a organizao sensorial. 
Poder ser mostrado que estas condies so essenciais no que diz respeito  associao, como o so na experincia 
primria?0 Na verdade, nem tdas as regras que governam o comportamento das associaes podem ser deduzidas dste 
modo. As regras da experincia sensorial no nos oferecem informao direta a respeito da natureza dos traos em si 
mesmos, nem nos informam a respeito do destino dos traos no curso do tempo. Por outro lado, quando estudamos a 
natureza dos traos, podemos, em qualquer ocasio, fazer observaes pelas quais certos problemas de percepo podem 
ser esclarecidos. A organizao perceptiva ocorre no smente na dimenso do espao, mas tambm na do tempo. Neste 
ltimo caso, o comportamento dos traos  susceptvel de ser to importante como o das experincias presentes 
envolvidas. O papel dos traos a sse respeito ser mais prontamente compreendido, se sua natureza em geral fr melhor 
conhecida. 
Uma segunda conseqncia de nossa hiptese tem significao tanto prtica quanto terica. Esta conseqncia refere-se  
Psicologia animal. J vimos que as slabas sem sentido no se associam fcilmente por sua prpria conta, porque no so 
espontneamente formadas, dentro das sries de tais componentes, pares bem caracterizados e outros grupos especficos, 
mas os sujeitos que tm grandes dificuldades com tais sries podem ter boa memria na vida quotidiana. Podem lembrar-se 
de muitos acontecimentos que jamais tiveram a inteno de confiar  memria. Isto nos faz lembrar de um estranho 
contraste  que 
10 Atualmente (1947). a resposta a esta pergunta , em parte, conhecida. As inter-relaes funcionais dentro de uma srie 
de componentes dependem, grande- mente, conforme tem sido mostrado, da natureza do material apresentado na srie. Isto 
 verdade tanto no que diz respeito s inter-relaes que perturbam o aprendizado, como s que facilitam o processo. At 
agora, as investigaes tm-se referido principalmente  parte que a semelhana de itens desempenha no aprendizado. Os 
efeitos perturbaclores da semelhana tm sido investigados por Von Restorff (PsychOl. Forsch., 18, 1933), e por vrios outros 
psiclogos na Alemanha e na Amrica. O resultado dsses estudos  perfeitamente claro: sries de slabas sem sentido 
constituem um material difcil de ser aprendido, no tanto porque os componentes so destitudos de sentido, como porque 
em sries to montonas no se formam espontneamente subgrupos especificos. A influncia positiva que a semelhana 
dos itens exerce sbre sua associao foi demonstrada pelo autor dste livro (ProC. Amer. Philos., 84, 1941). 
157 
todos os especialistas em Psicologia animal devem ter observado  entre a aprendizagem do animal, quando esta ocorre 
durante a experimentao de laboratrio, e a formao de hbitos nos mesmos animais, quando vivem em outro lugar. No 
creio que a razo dessa diferena esteja corretamente interpretada, quando nos referimos a circunstncias mais naturais 
que se encontram na ltima situao. Que quer dizer a palavra natural quando a empregada? Talvez signifique apenas: 
favorvel no que diz respeito  associao; em outras palavras, favorvel do ponto de vista da organizao. 
Sob a influncia da velha concepo de associao, muitas experincias com animais, entre outras as de discriminao 
sensorial, foram feitas de maneira que deixavam inteiramente de lado a idia da organizao. Assim, por exemplo, nas 
paredes do fundo de dois corredores, so apresentados dois objetos que o animal dever pouco a pouco distinguir, sob a 
influncia da recompensa ou do castigo. No cho do corredor, sem ligao com os objetos, so colocados fios que castigam 
o animal com um choque eltrico, quando le escolhe errneamente. Evidentemente, um choque eltrico, aplicado neste 
ponto, e o objeto, mostrado em outro lugar, no se tornaro fcilmente parte de uma unidade organizada. Por outro lado, 
depois de uma escolha correta, o animal  alimentado em algum lugar fora da cena, isto , em uma situao to separada do 
objeto correto como o choque est do objeto errado. Certa vez, um jovem partidrio do behaviorismo perguntou-me se, 
alm de vagos conceitos, a Psicologia da Gestalt tinha algo de especfico a oferecer que tivesse importncia para um 
trabalho srio. Parece-me que j seria bem suficiente se no oferecssemos ao behaviorismo mais do que a nossa crtica ao 
seu mtodo e sugestes para adotar um melhor. No homem, segundo tudo indica, o aprendizado depende de organizao.  
altamente improvvel que a mesma regra no se aplique  formao de hbitos nos animais. Assim sendo, quando 
investigamos a discriminao sensorial, deveramos, em vez de separar os fatres decisisvos, fazer todos os esforos no 
sentido de facilitar sua organizao como unidade. H alguns anos, sugeri o processo seguinte: o objeto errado se move de 
sbito contra o animal, sempre que ste dle se aproxime. Tal tcnica certamente se pareceria com o aprendizado do animal 
na vida comum, muito mais do que o processo tradicional. Seria muito mais provvel que o objeto se impregnasse de 
negatividade.11 Dsse modo, poupar-se-ia muito tempo. Pondo-se de lado as razes de ordem prtica, contudo, parece-
me um slido postulado da cincia experimental a necessidade das condies serem variadas sob todos os aspectos. Se os 
partidrios do behaviorismo pudessem ser persuadidos a variar suas situaes experimentais, no que 
11 W. Kdhler. The Pe4 Seminary, 32, 1925. 
158 
se refere s questes de organizao, provvelmente aprenderiam muitas coisas novas a respeito da natureza do 
aprendizado animal.2 
Minhas observaes aplicam-se  formao de reflexos condiciona. dos, da mesma maneira que a outros mtodos pelos 
quais a aprendizagem est sendo estudada nos animais. Alguns autores preferem a expresso reflexo condicionado  de 
associao. No vejo, porm, onde o primeiro conceito seja mais claro ou mais fundamental que o segundo. De fato, o 
que  chamado reflexo condicionado pode no passar de um caso especial de associao. O estmulo condicionado, que se 
torna artificialmente ligado a um reflexo, s pode, provvelmente, evocar aqule reflexo porque, antes de mais nada, se ligou 
ao estmulo adequado que naturalmente provoca o reflexo. ste, sem dvida,  uma associao de dois fatos sensoriais. 
Aparentemente, tal associao pode-se tornar to forte que, atravs do mero trao do estmulo adequado, o estmulo 
condicionado provoque szinho o reflexo. Ora, se esta associao  a coisa que deve ser aprendida no condicionamento, e se 
a associao de dois processos  apenas o efeito persistente de sua organizao, devemos chegar, a respeito do 
condicionamento,  mesma concluso que chegamos a respeito da associao ordinria e da aprendizagem de animais com 
discriminao. Presentemente, no parece haver prova experimental quanto  questo de saber se as modificaes na 
apresentao dos estmulos condicionados, em suas relaes com o incondicionado, influencia o processo de 
condicionamento. Na experincia habitual, uma campainha  tocada, por exemplo, pouco antes de ser dado o alimento; 
nenhuma ateno se presta, no entanto, s condies que impediriam ou facffitariam a organizao dos dois fatos. No 
entanto, neste ponto a Psicologia animal tem oportunidade de verificar o valor de duas presunes ao mesmo tempo: 
primeiro, se  verdade que o condicionamento abrange a associao de dois fatos sensoriais, e, segundo, se o 
condicionamento depende de fatres de organizao. 
Partindo-se do ponto de vista a que agora chegamos, algumas das discusses anteriores aparecem sob nova luz. Tornou-se 
provvel que a associao dependa da organizao, porque uma associao  o efeito persistente de um processo 
organizado. Ora, quando se lanou a idia de organizao, ramos, a cada passo, dificultados por explicaes empfricas, nas 
quais os fatos contrrios  teoria do mosaico eram prontamente rejeitados como meros produtos da aprendizagem. Ficou 
bem mostrado, espero, que, como questo de princpio, stes fatos no permitem explicao em funo da aprendizagem e 
que, portanto, a organizao deve ser aceita como uma fase primria da experincia. Agora, podemos ir adiante e afirmar 
que, ao contrrio, quaisquer efeitos 
12 Um passo decisivo nesta direo foi dado por K. 8. Lashley (Jurn. Genet. Psychol. 37, 1930). que introduziu no repertrio da psicologia animal 
o :IumYing stanci, cujo mrito principal Consiste no fato de forar, virtualmente, o animal a prestar ateno s partes essenciais da situao 
experimental. 
159 
que a aprendizagem tenha sbre a expernca subseqiente sero pr vvelmente ps-efeitos de organizao anterior. De 
fato, a aprendizagem, no sentido em que a expresso tem sido usada neste captulo, corresponde  associao e, se temos 
razo, a associao  um ps-efeito da organizao. Por conseguinte, acarreta um crculo vicioso qualquer tentativa no 
sentido de reduzir a organizao de experincias  influncia de significaes associadas e semelhantes. No se pode reduzir 
a organizao a outros fatres, se se quer que stes fatres sejam compreendidos apenas em funo de organizao. No 
hesito em repetir que as experincias so muito comumente impregnadas de significao. Esta afirmativa, porm, pode ser 
ilusria, se eu no acrescentar, primeiro, que, na maioria dos casos, trata-se de experincias organizadas a que tais 
significaes se prendem e, em segundo lugar, que os fatos da aprendizagem aqui abrangidos tambm derivam dos 
princpios de organizao. 
BIBLIOGRAFIA 
M Bentley: The Field o! P8yehology. 1924. 
G. Katona: Organizing and Meinorizing. 1940. 
K. Koffka: The Growth of the Mmd. 1924. 
R. M. Ogden: Psijchologij and Education. 1926. 
O. Seiz: Die Gesetze des geordneten Denkverlaufs. 1913. 
J. van der Veldt: LApprentissage du mouvement et lautomatisme. 1928. 
160 
